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“Sem indústria, esta cidade não é São João da Madeira, é outra coisa”
Date 24/10/2008 10:50 Author nunoborges
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Manuel Cambra, em entrevista exclusiva ao Mais Alerta

“Sem indústria, esta cidade não é São João da Madeira, é outra coisa”

 

Empreendedor mas polémico, prático mas exigente, popular mas ambicioso, Manuel Cambra ergue-se no meio sanjoanense como homem forte e intransigente nos ideais políticos que o norteiam”. É desta forma que Manuel de Almeida Cambra é apresentado na página da Câmara Municipal de São João da Madeira, onde foi presidente desde 1984 até 2001. Visto por muitos como um salvador da terra, Cambra disse, em entrevista exclusiva ao Mais Alerta, que está, neste momento, a fazer uma análise do seu passado como industrial, não esquecendo nunca o “sacrifício” que fez pela terra.



Nascido em 1929, Manuel Cambra emprestou, como o próprio diz, um quarto de século de vida, à condução dos destinos de São João da Madeira. As obras emblemáticas foram muitas: a reabilitação urbana do concelho, com a introdução de um grande número de rotundas, o Elemento Arquitectónico da Praça Luís Ribeiro que refere ter servido para “amenizar” de modo “a que as coisas não ficassem com um disparate daqueles”, entre outras obras. No entanto, a mítico presidente da Câmara, que também já foi deputado na Assembleia da República, ainda gostava de ter feito obras que até hoje não arrancaram. Exemplo disso é o metro à superfície, a circulatória externa à cidade e o politécnico.

Sobre a política sanjoanense não quer falar, apenas deixa escapar tem havido um retrocesso no desenvolvimento da cidade e explica que “os políticos profissionais têm outro estímulo para trabalhar”. Em relação às alterações actuais à Praça Luís Ribeiro, apenas diz: “Não gosto do que está feito e do que tem sido feito ultimamente”. Apesar de não querer falar muito, Manuel Cambra vai deixando as suas marcas e as suas ideias em relação ao presente e ao futuro de São João da Madeira. 

Como recorda o tempo em que foi presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira?

Recordo com muita satisfação e muito orgulho porque o povo optou, na altura, pela escolha de uma pessoa simples, modesta, sem ter nada a ver com política profissional, políticos de gema que nunca fizeram mais nada na vida sem ser essa actividade. São João da Madeira, nas suas tradições de longa data e muito em especial após as eleições livres, levou a que todos nós participássemos e ajudássemos a que o concelho desenvolvesse e continuará nesse esquema de desenvolvimento local e regional. Para quem conheceu São João da Madeira há 40 anos, ou até há 20 anos, pode ver que a cidade está diferente.

 

Qual a melhor recordação que tem?

A melhor recordação tem a ver com a primeira e a segunda eleição. É preciso notar que ganhamos cinco vezes consecutivas, embora o primeiro mandato fosse intercalar. Recordo o povo que aderiu ao nosso programa e, por isso, senti uma alegria muito grande, embora correndo o risco de prejuízos particulares que isso acarreta. Abandonar uma vida durante cerca de 20 anos é muito complicado porque quem tem as suas actividades e indústrias é natural que se enfrente crises periódicas e isso acarreta muitos problemas à vida privada.

Mas sacrifiquei-me sempre em prol da minha terra, não esquecendo as actividades anteriores, por isso, quero recordar a presidência da ADS (Associação Desportiva Sanjoanense), por onde passei durante largos anos, embora em períodos intercalares. Nesse tempo relvamos o estádio, subimos para a primeira divisão pela segunda vez, fomos campeões da segunda divisão nacional e isso também marca e, de certo modo, não me sinto vaidoso com isso, mas sim com algum orgulho.

 

É uma vida dedicada à terra?

É verdade.

 

Qual foi a obra que mais o marcou durante o tempo em que esteve na presidência da autarquia?

Tenho algumas. Uma obra que já estava começada era os Paços do Concelho. A reabilitação urbana da cidade foi muito difícil, chegou a haver manifestações com tarjas negras, com ajuntamentos de pessoas a questionar e a protestar, mas penso que São João da Madeira melhorou muito a sua mobilidade de tráfego no centro da cidade.

 

Está a referir-se à construção das rotundas?

Estou a referir-me a toda a reabilitação.

 

Mas a construção das rotundas foi muito polémica, pelo número elevado.

Foi muito falada, questionada e criticada, no entanto, ainda se continuam a fazer rotundas em cidades muito importantes, até mesmo na Suíça. Considero que em termos de mobilidade de tráfego foi importante.

 

O Elemento Arquitectónico da Praça também foi construído no seu mandato.

Esse monumento foi uma intervenção arquitectónica em homenagem à indústria pioneira sanjoanense que era o chapéu. Existem chaminés espalhadas pelo concelho e havia um estudo da Câmara Municipal em que se consideravam as chaminés como de interesse municipal. O Elemento Arquitectónico foi feito também para amenizar um pouco o disparate do edifício com aquele volume de construção (Parque América). A Praça Luís Ribeiro era um conjunto muito homogéneo e com muita classe. O Elemento Arquitectónico veio amenizar para que as coisas não ficassem com um disparate daqueles. No entanto, cada presidência faz o que entender. Tem havido algumas intervenções na Praça Luís Ribeiro, umas para melhor, outras para pior. Mas a vida não pára.

 

“Não gosto do que tem sido feito ultimamente” na Praça Luís Ribeiro

 

Mas acha que a evolução da Praça Luís Ribeiro está a caminhar no bom sentido?

Eu não comento isso porque não gosto.

 

Não gosta de comentar ou do que está feito?

Não gosto do que está feito e do que tem sido feito ultimamente.

 

O projecto do Parque do Rio Ul também já veio da altura em que estava na liderança da autarquia.

Sim, o projecto do Parque do Rio Ul e o Jardim nascente da Câmara Municipal. Graças a Deus que nesse aspecto também andamos para a frente.

 

Como vê estas obras serem inauguradas agora, sabendo que já estavam projectadas no seu tempo?

Acho muito bem. Acho que é importante e não estou aqui para conquistar nenhuns louros. Nós iniciamos, depois vemos concluídas e põem lá a placa a dizer que foram eles que fizeram e nós concordamos. Não tenho problema nenhum nisso. Cada um tem a sua maneira de estar na vida.

 

Qual a obra que gostava de ver feita e não conseguiu levar a cabo?

Era o metropolitano entre Oliveira de Azeméis e Espinho. Havia um projecto entre Vila Nova de Gaia e Espinho que tinha umas quatro paragens no pequeno território de São João da Madeira. Era muito interessante para pessoas que não têm carro ou que não querem gastar tanto dinheiro ou até que não podem, podiam utilizar esse transporte económico, rápido e que nem poluente era. Esse era um velho sonho que não conseguimos realizar.

A circulatória externa que já tinha começado com uma ponte junto à Faurecia seria para avançar a toda a volta de São João da Madeira, para que o tráfego pesado não andasse a congestionar o trânsito urbano, mas esta obra também não se conseguiu.

O politécnico era outra. Chegamos a contactar entidades para instalar aqui um politécnico vocacionado para a juventude com áreas ligadas à tecnologia. Não consegui fazer isso e fiquei muito triste. Acho que ficava muito bem no edifício da torre da Oliva. Chegou a ser encetado o negócio mas houve alguém que adquiriu o fabrico das torneiras, ficou com o direito de utilizar o espaço e inviabilizou-nos o projecto. Mas se ficasse na Câmara por mais um mandato gostava de ter deixado isso resolvido no meu tempo. Não consegui e, por isso, lamento.

 

Como vê São João da Madeira com os problemas que as diversas indústrias atravessam, nomeadamente a indústria do calçado?

São João da Madeira é ainda a capital do calçado. Mas, em termos gerais, São João da Madeira sem a indústria não é São João da Madeira. Precisamos de ter indústrias, serviços, equipamentos de educação e ensino, mas tudo isto agregado à indústria e não deixar que saia daqui tudo e mais alguma coisa. A indústria do calçado já em 1426 aparecia aqui no concelho, como reza a história. É pena que São João da Madeira esteja a perder população e, em especial, as pessoas que vinham de fora para cá trabalhar. Isso para nós era muito importante e vantajoso, porque era aqui que faziam as suas compras e traziam os seus filhos. Ainda há uma percentagem mas muito pequena e, se continuamos assim, deixamos de ter cá as pessoas que não nasceram cá.

 

Está então a dizer que tem que se continuar a investir nas indústrias tradicionais?

Sim, nas indústrias tradicionais. Sem isso não é São João da Madeira, é outra coisa qualquer.

 

“Tendo havido algum retrocesso ultimamente”

 

Sendo um concelho pequeno, não deveria estar mais desenvolvido?

Eu não digo isso. Acho que deveríamos completar os projectos que estavam previstos. A circulatória externa, que fazia a ligação à IC2, o metro de superfície, o politécnico e criar condições para os jovens industriais.

 

São projectos fundamentais neste momento?

Sim. Sem indústria, esta cidade não é São João da Madeira, é outra coisa.

 

A cidade tem evoluído da forma que esperava?

Tem havido algum retrocesso ultimamente.

 

Como vê o panorama político actualmente em São João da Madeira?

Os políticos profissionais têm outro estímulo para trabalhar e não digo mais nada.

 

Há muita curiosidade em torno do que está a fazer neste momento.

Estive na Assembleia da República e ainda faço parte das listas, mas ainda não me chamaram novamente e, por isso, ainda não fui.

Tenho muitos problemas que ficaram para trás quando tinha uma actividade empresarial. Tenho montes de documentos e papéis antigos para dar uma vista de olhos. Antes de ir para a Câmara era industrial e dediquei um quarto de século da minha vida à autarquia. Estou a fazer uma espécie de análise do meu passado como industrial.

Laura Sequeira

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