“O comércio tradicional está a resvalar lentamente até ao abismo”
24/10/2008 10:53 nunoborges
Abandono da Praça Luís Ribeiro é uma das críticas dos comerciantes
“O comércio tradicional está a resvalar lentamente até ao abismo”
O abandono da Praça Luís Ribeiro, os parcómetros, os problemas com os toxicodependentes, a abertura do 8ª Avenida e a crise financeira são os problemas que os pequenos comerciantes dizem deparar-se diariamente. As vendas diminuíram e os encargos mantêm-se. Os representantes do comércio tradicional não sabem até quando conseguirão manter as portas abertas, enquanto outros já tiveram mesmo que fechar as portas
Laura Sequeira
Arrenda-se, aluga-se e trespassa-se são algumas das palavras mais lidas nas montras das lojas do pequeno comércio em São João da Madeira, acompanhadas pelos descontos de 70 por cento e pelas liquidações totais. O Mais Alerta percorreu as zonas comerciais da cidade sanjoanense e deparou-se com um cenário onde muitas lojas já fecharam portas e outras só aguardam o fim do mês para o fazer. As lojas que ainda se mantêm abertas pouca esperança têm que a situação mude para melhor. Os encargos mensais fixos mantêm-se e as vendas caem a pique.
A maior parte dos comerciantes queixa-se de uma quebra nas vendas e chegam mesmo a dizer que não sabem até quando conseguirão manter as portas abertas. As rendas elevadas e a abertura do Centro Comercial 8ª Avenida são algumas das razões apontadas para as dificuldades que o pequeno comércio atravessa. No entanto, a crise financeira nacional também está entre as razões apontadas pelos comerciantes que não sabem qual a solução para o problema que têm entre mãos.
Na Praça Luís Ribeiro, os comerciantes pedem que se baixe o preço dos parcómetros ou até mesmo que os retire porque alegam que afastam os clientes que não querem pagar estacionamento para fazer compras quando têm locais onde o parqueamento é gratuito e muito próximo das lojas. Outra situação que preocupa os pequenos comerciantes da Praça tem a ver com os toxicodependentes que se costumam juntar na entrada do Centro Comercial Parque América. Maria Gonçalves, proprietária da Foto Mimi, explica que “as pessoas têm muito receio e à noite já muita gente não vem à Praça”.
Embora o negócio da fotografia seja mais especializado, Maria Gonçalves refere que só mesmo o atendimento humanizado e cuidado pode fazer valer as qualidades do comércio tradicional em detrimento do atendimento quase mecanizado das grandes superfícies. “Nós temos um serviço mais especializado mas também nos afecta porque também têm lá (Centro Comercial 8ª Avenida) uma loja de fotografias. No entanto, nós temos um serviço mais especializado e humanizado e lá não e, por outro lado, também temos serviços que eles não fazem”. Esta comerciante com loja na Praça Luís Ribeiro afirma que a crise financeira ainda veio aumentar os problemas e desabafa: “Já tenho sentido dificuldades, mas este ano foi a altura em que mais se sentiu e as pessoas vão sempre comprar o que é mais barato”.
Rendas elevadas levam casas a fechar no fim do mês
Artur Nunes, proprietário da Casa Fifi situada no Centro Comercial Parque América, diz que em 25 anos de comerciante nunca assistiu a uma crise tão grande como a que está a atravessar neste momento. Apesar de reconhecer que algumas lojas vão sobrevivendo, Artur Nunes adianta que “o comércio tradicional está a resvalar lentamente até ao abismo”. Para o proprietário da Casa Fifi a única alternativa de luta para os pequenos comerciantes seria a união de todos para consolidar estratégias e atrair cada vez mais clientes. No entanto, Artur Nunes explica que o pequeno comércio está muito disperso e não tem os mesmos meios que as grandes superfícies para poder fazer as promoções que se encontram nas casas que estão situadas nos grandes Centros Comerciais.
Enquanto Artur Nunes ainda consegue manter a porta aberta, apesar de ter diminuído o espaço do seu negócio, Carla Silva, proprietária da loja de roupa de criança Kokonuts, vai fechar as portas já no fim do mês, à semelhança do que já aconteceu e continua a acontecer com outras lojas na Avenida Dr. Renato Araújo. Carla Silva fala de rendas elevadas e da inflexibilidade dos senhorios em baixar os encargos mensais destas lojas. “Tentamos que baixassem a renda por duas vezes, mas não conseguimos e, por isso, temos mesmo que fechar porque não conseguimos fazer face às despesas”, refere a proprietária da Kokonuts que, a partir do fim do mês, vai voltar a ficar em casa e cuidar da família.
Associação Comercial pede uma mudança
A Associação Comercial dos concelhos de Ovar e São João da Madeira, por parte de um representante sanjoanense, explica que “efectivamente a Praça Luís Ribeiro está muito parada”. O representante daquela entidade garante que têm sido feitos eventos naquele local mas salienta que também é necessário haver um esforço por parte dos comerciantes no sentido de alterar certos hábitos.
O representante da Associação Comercial adianta que é necessária uma mudança no comércio tradicional para que seja possível cativar os clientes e explica que aquela entidade está disposta a colaborar com os comerciantes para que tal seja possível. No que ao estacionamento diz respeito, o representante da Associação Comercial refere que os parques de estacionamento estão localizados no centro da cidade e contam com preços mais baratos, mas admite que as pessoas não os utilizam porque “querem ter os carros à porta das lojas”.
CAIXA
Autarquia não comenta críticas dos comerciantes
Contactada pelo Mais Alerta, a Câmara Municipal de São João da Madeira escusou-se a fazer comentários sobre esta matéria. Até ao fecho desta edição não foi possível obter qualquer declaração por parte do município sanjoanense relativamente a questões levantadas pelos próprios comerciantes, como sendo os parcómetros na Praça Luís Ribeiro ou o facto do Centro Comercial 8ª Avenida estar no centro das críticas.
CAIXA
Diariamente encerram 30 a 40 estabelecimentos no País
A Confederação do Comércio, pela voz do seu presidente José António Silva, já avisou que todos os dias encerram 30 a 40 estabelecimentos de Norte a Sul do País. Para aquele responsável esta questão pode lançar no desemprego centenas de trabalhadores. José António Silva descreve o cenário como sendo “um problema silencioso” e explica que quando uma grande empresa fecha há logo ecos na comunicação social porque os despedimentos são em massa. Neste caso, os despedimentos vão acontecendo mas no silêncio.
O presidente da Confederação do Comércio aponta soluções e diz ser essencial a contemplação de medidas excepcionais ao nível dos impostos para os pequenos comerciantes que já não conseguem fazer face aos encargos mensais.